Confrade João Marcos Andrietta

As Expectativas dos Pobres

artigos

(Festa de São Vicente de Paulo)

Vivenciamos nas comemorações em homenagem a São Vicente de Paulo mais uma valiosa oportunidade para refletirmos sobre a vocação vicentina. Assim, propomos um exercício, através do qual iremos nos colocar no lugar dos Pobres, para descobrir o que esperam dos Vicentinos.

Temos uma condição para praticar a proposta sugerida. Trata-se da empatia, que é – conforme define o dicionário “Aurélio” – a “tendência para sentir o que sentiria, caso estivesse nas situações e circunstâncias experimentadas por outras pessoas”. Dessa maneira, conseguiremos compreender que os Pobres possuem expectativas nem sempre imaginadas pelos Vicentinos, pois o significado da palavra expectativa – esperança alicerçada em uma promessa – revela a importância dos Confrades e das Consócias na vida de homens, mulheres e crianças mais necessitadas.

Podemos admitir que o Vicentino é, para o Pobre, um autêntico “portador da esperança”. Daí entendermos a relevância da definição de esperança, como a confiança da conquista do que se deseja. Portanto, cabe ao Vicentino assumir – com plena convicção – a dimensão das perspectivas de Deus em relação a todos os quais Ele escolheu para seguir e realizar o projeto de Frederico Ozanam, com o objetivo depositado sobre os Confrades e as Consócias de proporcionar aos Pobres a materialização da esperança, ou seja, concretizar os anseios de quem está vivendo em situação de carência.
A partir das considerações apresentadas até aqui, vamos pautar algumas das expectativas dos Pobres ligadas aos Vicentinos:

– O Encontro: certamente o momento sublime da vocação vicentina é o encontro entre o Vicentino e o Pobre, pois nessa ocasião acontece o que chamamos de “razão de ser” da SSVP, porque a origem da Entidade se deu após o clamor de Ozanam, que bradou: “Vamos aos Pobres”.

Mas quais são as expectativas dos Pobres para este momento? Os Pobres desejam receber dos Vicentinos – prioritariamente – a compaixão, para superarem seus sofrimentos e amenizarem humilhação de terem que pedir auxílio.

Faça então o seguinte exercício: se coloque no lugar do Pobre e imagine você pedindo ajuda, pelo fato de passar por necessidades (Pausa para meditação).

Reflita agora na mensagem de Deus diante dessa realidade: “Como escolhidos de Deus, santos e amados, visitam-se de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência.” (Colossenses 3, 12) (Pausa para meditação).

– O Serviço: sabemos que a missão – por excelência – do Vicentino é servir ao Pobre; e, com tão elevada incumbência foi designado aos Confrades e as Consócias o árduo, mas gratificante trabalho de “colocar as mãos na massa” para fazer o melhor pelos que sofrem privações.

Mas quais são as expectativas dos Pobres frente a essa atividade? Os Pobres esperam dos Vicentinos – quando e se possível – que sejam amenizados os seus problemas.

Faça então o seguinte exercício: se coloque no lugar do Pobre e imagine você aguardando um auxílio para sua precisão, e o mesmo não é viabilizado (Pausa para meditação).

Reflita agora na mensagem de Deus diante dessa questão: “E tudo o que vocês fizerem através de palavras ou ações, o façam em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por meio Dele.” (Colossenses 3, 17) (Pausa para meditação).

– A Promoção: reconhecemos que o auge da vivência vicentina ocorre quando o Vicentino consegue promover o Pobre. Entretanto, a promoção das pessoas socorridas pela SSVP é um processo que se dá a partir das ações dos Confrades e das Consócias, motivados em agir no propósito de restituir a dignidade dos Pobres, e não torná-los ainda mais dependentes de quaisquer tipos de ajudas.

Mas quais são as expectativas dos Pobres relacionadas a esse acontecimento? Os Pobres confiam que os Vicentinos serão capazes de contribuírem com ideias, projetos, recursos da SSVP, etc. para o alcance de tudo o que almejam para melhorar suas vidas, nos aspectos social, econômico e espiritual.

Faça então o seguinte exercício: se coloque no lugar do Pobre e imagine você querendo ser promovido – humana e socialmente – e tal conquista não se consolide. Obviamente, a frustração será arrasadora (Pausa para meditação).

Reflita agora na mensagem de Deus face a esse cenário: “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em Mim fará as obras que Eu faço, e fará ainda maiores do que estas.” (João 14, 12) (Pausa para meditação).

Constatamos a veracidade de cada uma das três ocorrências citadas anteriormente se avaliarmos a nossa prática vicentina, revendo o passado e procurando identificar quantas pessoas ou famílias conseguimos promover; ou melhor, atender às suas expectativas. Caso tenham a lembrança dos Pobres que obtiveram a promoção, partilhem com os Confrades e as Consócias da sua Conferência a experiência vivenciada. Contudo, se pelo contrário, recorrendo à memória não possuírem nenhum Pobre que tenha sido promovido, é o tempo propício para uma reavaliação das maneiras empregadas no socorro às famílias assistidas pela Conferência.

Dessa forma, reavaliando os procedimentos aplicados pelos Vicentinos no relacionamento com os Pobres, será possível encontrar uma ocasião favorável para redescobrir modos inéditos de praticar a caridade, e assim despertar, em cada um dos Confrades e Consócias, a necessidade de repensarem a vocação vicentina, por causa das exigências impostas pelo mundo atual, que fez surgir novas formas de pobreza.

O empenho dos Vicentinos na busca por se adaptarem às cobranças dos tempos modernos será um sinal forte da renovação do “sim” ao chamado de Deus para servir aos Pobres, sobretudo reafirmando a pertença a missão da Sociedade de São Vicente de Paulo, o que assegura o cumprimento da promessa de Deus, quando diz: “Fiquem certos de que receberão do Senhor a herança como recompensa. O Senhor, a quem vocês servem, é Cristo.” (Colossenses 3, 24).

Destacamos, por fim, que os Vicentinos podem permanecer tranquilos em suas ações norteadas para o bem do próximo, pois a Sociedade de São Vicente de Paulo é mais um projeto sonhado por Deus, e pelo qual todos os Confrades e todas as Consócias devem entoar o salmo: “Como são grandes Tuas obras, Senhor, e Teus projetos, como são profundos.” (Salmo 92, 6).

Colaboração: Confrade João Marcos Andrietta*
*Confrade Andrietta é membro da Conferência Nossa Senhora da Imaculada Conceição (Salto/SP). Atualmente está licenciado para tratamento de uma doença degenerativa que paralisa os movimentos do corpo. É autor dos livros “Reflexões das Cartas de Frederico Ozanam” e “Servir com Simplicidade” (Coleção Vicentina 43 e 50).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *